Indústria versus MEC

13/08/2011 17:23

Indústria versus MEC

A incompetência de entes públicos provoca situações inesperadas. O setor industrial – que é parte da elite – se opõe a pontualidades ao tipo de educação conduzida pelo MEC. Claro que isso não basta para afirmar que as elites estão se atracando, mas há uma divergência no ar; e ainda bem, pois ela se refere à falta de qualidade do ensino. Nunca se expôs tanto, via mídia, o despreparo dos estudantes até mesmo para postos básicos de trabalho. O centro do fracasso é o (des)ensino da modalidade formal da língua materna. Hoje, é tão raro encontrar estudantes que leem e escrevem bem quanto achar professores de Português de verdade. 

Mas é possível contestar. Há dias, num dos intervalos do Jornal da Globo, vi uma instigante propaganda do Senai ou do Sesi (não me lembro com exatidão). Na peça, um rapaz trabalhador termina seu enunciado, dizendo mais ou menos o seguinte: “...fiz este curso para mim ter ótimo futuro...”. Imediatamente, o jovem percebe que se expressara de forma diferente do que aprendera. Por isso, pede desculpas e refaz o enunciado: “...para eu ter...”. 

Alguém indagaria: que importância tem isso? Toda. Antes de tudo, a readequação do enunciado busca respeitar a norma padrão da língua, ou seja, a única que deveria ser ensinada na escola. Mais: essa propaganda surge após o episódio daquele livro didático que flexibiliza o ensino da gramática formal; ou seja, do instrumento central para quaisquer outros aprendizados vida a fora. Portanto, a propaganda de parte do sistema S (vinculado à Confederação Nacional da Indústria – CNI) está dizendo ao MEC e ao País que qualidade – também do ensino – é indispensável. 

Claro que o sistema S está pensando prioritariamente em seus interesses – sobrevivência da indústria e da sociedade capitalista – e não nas necessidades dos trabalhadores. Todavia, a classe trabalhadora pode e deve “capitalizar” tudo dessa “contenta intelectual”. Para isso, é mister entender os rumos absurdos que a educação vem tomando, bem como as manobras do MEC. 

Por falar em manobras, o MEC está veiculando sua mais fresca propaganda. Trata-se da peça – ao custo de 223,5 mil – que, conforme a Folha de S. Paulo, de 28/07/2011, busca defender Haddad, o possível candidato do PT à Prefeitura de SP. A defesa do Ministro se dá por conta da posição “didático-acadêmica” que o MEC sustentou diante do já exposto caso do esdrúxulo livro de Português. Na propaganda, é dito que “a escolha dos livros didáticos não cabe ao MEC, e sim a professores de universidades”. Diz-se ainda que “o Programa Nacional do Livro Didático é o maior e mais respeitado em todo o mundo” (!!!). 

Que lástima o MEC ter aquele álibi, absolutamente verdadeiro. De fato, há, principalmente, (sócio)linguistas – aninhados em Letras – ridicularizando, mormente em palestras, os professores que insistem no ensino da norma padrão da língua. Muitos dos colegas estão fazendo – de forma consciente – um gravíssimo desserviço à nação; já estão ajudando a não formar sequer mão-de-obra (barata, obviamente) ao País. A elite econômica está desesperada com a ignorância extrema do povão, de quem depende. Há ruídos nas engrenagens das indústrias e das escolas. 

Da parte do MEC, sua responsabilidade na tragédia acentua-se ao dar guarida a essa gente que nada deve à honestidade acadêmica. Há “caciques” na academia recebendo incentivos para difundirem posturas pedagógicas falidas. Logo, além do setor industrial, o restante da sociedade deve começar a gritar contra isso; ou, então, colher os frutos. 



*ROBERTO BOAVENTURA DA SILVA SÁ - dr. em Ciência da Comunicação/USP e prof. da UFMT 

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